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Punk | Oi! | Hardcore


Aviso já que este postal inclui referências depressivas a memórias da minha juventude encharcada em álcool e opiáceos, a um Bairro Alto de 2002 que nada tem a ver com o actual passados 18 anos e a um underground retratado tal qual eu o recordo e não como muito provavelmente realmente era ou é recordado de outras perspectivas mais sóbrias que a minha.

Arrumei as botas algures em 2007 depois de uma noite particularmente pesada em que recordo vagamente ter ido a Almada ao concerto da banda de uma das minhas ex-namoradas, ainda fomos três viaturas de punks e skins extremamente embriagados ao ponto de termos parado pelo menos duas vezes na ponte 25 de Abril para vomitar, eu ter estacionado o carro na rotunda do Cais do Sodré e no pub a que fomos o empregado me ter exigido a chave do carro antes de me continuar a servir. Sei que começamos a beber algures em Alvalade ainda ao final da tarde e que quando despertei do meu turpor de álcool e codeína estava no Cais Sodré e já amanhecia, houve porrada, recordo ter também ouvido disparos, e foi o momento em que compreendi "Flávio, tu já não tens vida nem idade para isto".

Nesse processo de sobriedade (deixei de sair à noite, de ir a concertos, de beber, de fumar e de acordar com moças cujo nome nem recordava) apercebi-me da futilidade da maior parte da "família da rua", aquelas dezenas de pessoas que víamos todos os dias, que tratavamos como família, toda uma irmandade artificial que durava apenas aquela noite muitas vezes, comecei a perceber que nem sabia o nome da maior parte das pessoas devido à intensa utilização de alcunhas, salvo raras excepções nem sabia onde viviam e na altura os telemóveis ainda eram extremamente básicos e dispendiosos, por isso as saídas eram automáticas pois o pessoal estava todo na rua dos extintos Meia Nota e Boca do Inferno, os metaleiros no Limbo, e numa questão de minutos já encontrávamos uma crew para a noite e houve semanas em que nem fui a casa (na altura em Vila Franca de Xira), dormindo em jardins, no chão do quarto de alguém ou em casas ocupadas na Almirante Reis.

E quase ninguém deu pela minha falta, o que é compreensível uma vez que ainda demorei alguns anos a compreender e a aceitar que me comportava como um animal quando começava a beber, mas notei que muitas vezes havia todo um fanatismo de falsa irmandade em que alguém se sentia capaz de morrer por um mano/camarada/oquerqueseja que na realidade nem conhecia no dia a dia, desses tempos mantenho amizades que se contam pelos dedos de uma mão e, recordo, éramos dezenas. Dos contactos que tentei reatar desde que iniciei a crise da meia idade há coisa de um par de anos, já soube de pelo menos uma meia dúzia de suicídios, umas quantas overdoses, alguns enlouqueceram notoriamente dos ácidos que tomaram ou com a agrura das vidas, outros são engenheiros e doutores e ainda há uns raros que nunca fizeram qualquer interregno e continuam na vida de sempre (frequentemente os mais saudáveis de nós: vegans e straight edges).

Ou seja, algumas famílias da rua foram realmente reais e duraram até agora pelo que tenho visto. Pela minha parte tenho tomado café e jantado com algumas das pessoas do meu tempo, aparentemente fui o único que não teve filhos, são sempre momentos de nostalgia e de uma certa memória sensorial que entretanto estão parados devido ao confinamento do Covid-19 - pois como bom quarentão que gastou o sistema imunitário todo nos excessos de juventude sou agora grupo de risco com vários problemas cardiorespiratórios e, uma vez mais, a caminho dos 150kg. Querem ver que afinal os straight edge é que a levam direita? Que pesadelo... sempre pensei que ia viver depressa, morrer jovem e ser um cadáver bonito, isto de envelhecer não estava de todo nos planos!!!

 

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publicado às 11:06


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